Caio Fernando Abreu

"Depois de todas as tempestades e naufrágios, o que sobra de mim em mim é cada vez mais essencial e verdadeiro." Caio Fernando Abreu

10 dezembro 2008

Acreditar

"Mas era um homem de fé. Acreditava em seus amigos, na verdade das coisas e em algo em que não se atrevia a pôr um nome ou um rosto, pois dizia que para isso existíamos nós, os padres. O sr. Sempere acreditava que todos fazíamos parte de algo e que, ao deixar esse mundo, nossas lembranças e nossos desejos não se perdiam, mas passavam a ser lembranças e desejos de quem viesse ocupar nosso lugar. Não sabia se havíamos criado Deus à nossa semelhança ou se Ele nos tinha criado sem saber muito bem o que fazia. Acreditava que Deus, ou o que quer que seja que nos trouxe para esse mundo, vivia em cada uma das nossas ações, em cada uma de nossas palavras e se manifestava em tudo o que nos fazia ser algo além de simples figuras de barro. O sr. Sempere acreditava que Deus vivia um pouco, ou muito, nos livros e por isso dedicou sua vida a partilhá-los, a protegê-los e a garantir que suas páginas, como nossas lembranças e nossos desejos, não se perdessem jamais, pois acreditava. e me fez acreditar também, que, enquanto restar uma só pessoa no mundo capaz de lê-los e vivê-los, haverá um pedaço de Deus ou de vida." 
(texto do livro 'O Jogo do Anjo' – págs. 306/307 – Carlos Ruiz Zafón)

08 dezembro 2008

A inveja

– A inveja é a religião dos medíocres. Ela os reconforta, responde às angústias que os devoram por dentro. Em última análise, apodrece suas almas, permitindo que justifiquem sua própria mesquinhez e cobiça, até o ponto de pensarem que são virtudes e que as portas do céu se abrirão para os infelizes como eles, que passam pela vida sem deixar outro rastro senão suas toscas tentativas de depreciar os demais, de excluir e, se possível, destruir quem, pelo mero fato de existir, coloca em evidência sua pobreza de espírito, de mente e de valores. Bem-aventurado, aquele para quem os cretinos ladram, pois sua alma nunca lhes pertencerá.
(texto do livro 'O Jogo do Anjo' págs. 18/19 – Carlos Ruiz Zafón)

07 dezembro 2008

Cartas

Olá, coisa ruim, coisa péssima, o assunto é contigo – e comigo. Não dizem que a gente deve exorcizar nossos demônios? Não sei como se faz isso, então resolvi escrever, que é sempre um método. Você aí – na verdade, aqui: escondido em mim, calado, canastrão. No fundo você se diverte, adora me ver atrapalhada. "Hoje ela se entrega, hoje ela cai." Você vai me tentar até o final, mas não entro no seu esquema, não vou ceder.
Por que você não se instala em outro corpo, em outra mente, que tal vazar, me esvaziar, se escafeder? Eu já acreditei, um dia, que você era um inquilino necessário, o tal do contraponto, um equilíbrio, algo que todo mundo traz dentro, alimenta e blablablá. Mas estou cansada. Esgotada mesmo. Não consigo mais negociar com você. Esta é uma carta de demissão. Tô te demitindo, te expulsando, porque você é quem tem que sair, eu não posso sair de mim mesma.
Foi por pouco ontem. Tem sido por pouco todos os dias. Semana passada, quando eu peguei a estrada e fui dirigindo até aquela cidadezinha para dar uma palestra da universidade, pensei que não iria conseguir voltar. Me veio a idéia bem clara: daqui eu sigo em frente, não retorno mais, o dinheiro que tenho me basta para pagar umas poucas diárias e a gasolina, depois arranjo um emprego em qualquer buraco e começo outra vida, que nem nos filmes. Pinto o cabelo, troco de nome, ninguém me acha. Claro que eles iriam me procurar, porque eu posso não ser a melhor mãe do mundo mas eles não têm outra.
E com o pivete aquele, a mesma coisa. Eu podia ter subido na carona daquela moto, eu bem que quis. Um guri bonitinho, sem camisa, de corpo bom, me secando na fila do banco como se eu fosse uma biscate, me esperando na saída, quer que eu te leve para algum lugar? Eu queria, viu. Eu queria ir com ele feito uma pizza, naquela moto enferrujada, com aquele guri sem camisa. O que de mau poderia me acontecer? Levar uma bofetadas na cara, ser comida por três no meio do mato, o cara me roubar o relógio. Mas poderia ter sido também uma tarde doce. A gente nunca sabe o que perdeu. Voltei para casa com a integridade de sempre e, pra variar, nenhuma surpresa me aguardava.
Ontem eu pensei que ia surtar. Tudo começou com aquela voz metálica da vizinha falando com o zelador através da janela do terceiro andar. Amanhê tenho que passar roupa. Amanhê. E continuava: eu sempre passo na terça-feira, às vez na quarta. Às vez. E não era só o fato de ela falar desse jeito medonho, era também o fato de ela passar roupa toda terça-feira, como se fosse uma missa, tem que ser aquele dia, naquela hora, em nenhuma outra: uma mulher programada para passar roupa na terça. Claro que não tenho nada a ver com isso, mas foi me dando uma irritação, fui pensando na minha vida e me lembrei que vou ao supermercado toda segunda, e faço a unha toda terça, e toda quarta-feira minha sogra almoça conosco, e me deu uma raiva desses compromissos que a gente inventa para se sentir com os pés no chão e para evitar sair por aí fazendo besteira, então eu pensei: vou fazer besteira, vou fazer. Tive vontade de quebrar a casa toda. Derrubar os enfeites da cristaleira, quebrar tudo que fosse de vidro, jogar cadeiras pela janela, só pelo prazer do estrondo, mas antes que eu iniciasse minha carreira de vândala comecei a chorar, e foi um choro tão sentido que você até riu de mim, pensou "hoje ela se entrega, hoje ela cai", mas eu não caí, e meia hora depois estava dobrando as roupas das crianças que estavam esparramadas pelo chão.
Você é forte, demônio. Eu também sou. Mas rogo por trégua, jogo a toalha, te peço de joelhos: tome um chá de sumiço, vá dar uma volta, aportar em outra alma, que esta minha já esta gasta e não vê graça alguma nas suas provocações. Quero que você me deixe, porque simpatizo cada vez mais com você.
Leila

Resposta 
Oi, Leilinha,
que imagem feia você tem de mim, minha flor. Todos possuem seu próprio demônio, eu sou o seu. Aliás, eu sou você. Não poderia fazer parte da sua vida como um intruso, você me acolheu ao nascer, somos feitos da mesma matéria. Vai querer me expulsar no bem-bom, justo agora que você é uma mulher adulta? Pense bem, sua vida ficaria um tédio sem mim. Eu sou o que te faz levantar da cama todos os dias, boba. E o que te faria deitar em tantas outras, se você não fosse tão resistente aos meus apelos.
Que vulnerável que você está, meu bem. Sofrendo por bobagem. Como se eu fosse seu inimigo. Eu sou a única coisa viva que você tem. Não fosse eu, você seria uma boazinha, uma fofa – pode coisa pior?
Algumas pessoas até conseguem me abafar, mas usam métodos mais eficientes do que este seu de pedir – pedir, santa ingenuidade! – para eu ir embora. Você não reza, pra começar. Se quisesse mesmo que eu desaparecesse, você rezaria, mas não reza, graças a Deus. Não suporto essa gente que junta as mãos, fecha os olhos, abaixa a cabeça e fica falando baixinho, miudinho, num cochicho irritante. Elas se matariam em troca de um pecado, quem lhes dera um erro em suas vidas. Inventam que tudo é coisa do demo – coisa minha – para terem do que se orgulhar aos domingos. "Pequei, padre!" Devem achar isso excitante. Que pobreza.
Dessas eu me afasto mesmo, não suporto falsidade. Mas você não reza, princesa, então tem salvação. Você apenas pede, numa cartinha singela, que eu a deixe em paz. Só faltou escrever "vade-retro". Mas não escreveu, não cometeu esse deslize abominável. Você me quer, amada. Você me deseja ardentemente. Você adoraria que eu tomasse conta de você. Pelo menos foi isso que eu entendi naquela sua última frase. Simpatiza comigo? Ora, você me ama. O que demonstra que tem Q.I. razoável. Vamos namorar?
Agora que você está mais mansinha, vamos deixar de viadagem e ir ao que interessa. Ao que te interessa. Se quiser que eu tome posse, eu tomo. Te ajudo a quebrar os enfeites da casa, a pegar estradas e não voltar, a se deixar seduzir por trombadinhas. Qualquer problema, você joga a culpa em mim, eu seguro a onda.
Mas há maneiras de fazer isso sem tanto estardalhaço. E sem tanto medo. Vem cá, bonitinha, se aproxime.
Há quanto tempo você não se sente mulher? Mulher e demônio são uma coisa só, você sabe. Deixa eu ver este rostinho. Nossa, quanta melancolia neste olhar. Você está perdendo as forças de tanto resistir a mim. E eu nem sou tão malvado assim, garota. Meu papel é apenas de estimular sua liberdade, porque não é possível alguém ser escravo do bom comportamento o tempo todo. Pense bem: você tem a mania irritante de atender a todos os telefonemas, todos. Não atenda. Deixe tocar de vez em quando, não interrompa o que estiver fazendo, mesmo que esteja deitada no sofá olhando pro teto. Não dê atenção ao chato que está chamando. E se você esqueceu do aniversário da sua irmã, esqueceu, ora. Sem drama. Não caia no papo chantagista dela, todo mundo tem o direito de esquecer algumas datas, mande ela pentear macaco. E quando não estiver com vontade de dizer a verdade, minta. Quer trocar uma tarde de trabalho por um banho de piscina, o que te impede? E se quer ter sexo com alguém diferente, a mesma pergunta: o que te impede? Sou seu avalista, meu bem.
E pode exagerar na conta. Tenho certeza de que suas fantasias são mais radicais do que estas bobagens que eu propus. Você é muito mais imaginativa do que eu, todas vocês são. Quer sumir por alguns dias? É só deixar um bilhete, sumirei por alguns dias, tem carne congelada na geladeira. Isto da carne congelada vai amenizar o golpe. Tudo o que uma família precisa é ser alimentada. Não vão dar pelo seu desaparecimento. Puf. Mamãe evaporou.
Enxugue essas lágrimas inúteis, levante este queixo e vá tratar da vida. Faça tudo o que deseja fazer. Você acha que depois de morta vai ganhar um bônus? Uma prorrogação para tentar sair desse empate? Esqueça o empate. Vença. Perca. Ofereça a si mesma algum resultado.
É você mesma quem assina. E eu.
(cartas do livro 'Tudo que eu queria te dizer')

04 dezembro 2008

um pouco mais de frases

Epígrafe
As únicas coisas eternas são as nuvens...
(Mário Quintana)

Carreto
Amar é mudar a alma de casa.
(Mário Quintana)

"No lugar onde se queimam livros, no fim se queimam homens." 
(Heirinch Heine)

"Na luta de um grande com um pequeno, ficar de fora não é ser neutro, é estar do lado do grande." (desconheço autoria)

"Se as viagens instruíssem os homens, os marinheiros seriam os mais instruídos." (Marques de Maricá)

"Tudo que chega, chega sempre por alguma razão." (Fernando Pessoa)

"Quando defendemos os nossos amigos, justificamos a nossa amizade." (Marques de Maricá)

"Se matamos uma pessoa, somos assassinos. Se matamos milhões de homens, celebram-nos como heróis." (Charles Chaplin)

Pastora descrida

Eu, pastora, que apascento
estrelas da madrugada
pelas campinas do vento,
fui falar ao eco antigo,
a cuja voz fui criada,
e que supus meu amigo.

"Sou sempre a de antigamente",
murmurei-lhe, enternecida.
E ele anunciou longe: 'Mente!'

Mas era a minha verdade
e, vendo-me assim descrida,
padeci com a falsidade.

"Eco amigo, eu não te iludo:
pastora sou destes prados
onde se confunde tudo;

mas sou de ontem e de agora,
dentro dos despedaçados
instantes de nenhuma hora...

A amargura não me aumentes..."
E o eco antigo, infiel e exato,
repetiu-me perto: 'Mentes...'

Vergada em móveis espelhos,
vi nas águas meu retrato,
chorei sobre mim, de joelhos.

Mas o gado que pascia
pelas colinas da aurora,
mascando as margens do dia,

veio a mim sem que o esperasse,
lambeu-me os olhos de outrora,
– reconheceu a minha face.

Feliz Ano Novo

Texto publicado (Folha de São Paulo) originalmente em forma corrida (prosa) e "rearrumado" em versos livres, sem a autorização do autor, mas como homenagem ao intenso conteúdo poético, por Soares Feitosa.

O ano de ver
através do vidro o eclipse do sol contra a neblina
pela janela da infância,
o ano de ver as primeiras imagens de
minha mãe,
que era uma Greta Garbo linda
com ombros altos e cabelo de coque "bomba atômica"
e lábios vermelhos, o ano
da coqueluche em que meu pai me levou de avião até 4.000 metros
para curar a tosse entre nuvens,

o ano de temer o quarto onde
meus pais conceberiam
minha irmã, o ano de olhar árvores, bichos
e gente como se eu morasse
fora do mundo (mistério que até hoje dura),
o ano do medo de levar porrada nas ruas da infância, o ano
das pernas das mulheres, colunas altas e distantes
(até hoje),
o ano dos fantasmas do fundo do corredor,
o ano do cachorro
atropelado, o ano dos meninos se comendo de solidão,
o ano de ficar olhando o vento no quintal,
o ano dos formigueiros,
o ano do sarampo e sua lâmpada vermelha,
o ano da catapora, o ano da luz azul do quarto da pneumonia de minha irmã,
o ano da cabeça quebrada, o ano da cara quebrada,
o ano de entender o porquê
dos miseráveis do morro da Mangueira
perto de minha casa,

o ano de ver o primeiro filme de minha vida, o "Ladrão de Bagdá",
e ficar sonhando com as coxas da odalisca no tapete voador,
o ano dos balões no céu, o ano do Mercury "grená" de meu pai
brilhando na luz da rua,
o ano do cuspe, o ano da porrada na esquina,
o ano dos palavrões, o ano da "merda" e da "puta que pariu",
o ano da inveja, o ano da bicicleta, o ano da primeira
namorada que me tratava
como nada,
o ano de temer a Deus e de contar
meus crimes aos padres negros de quem eu beijava a mão,
o ano em que um padre me deu um beijo na boca e eu fugi
com pânico na alma,
o ano do Porcolino, do Pernalonga, o ano do Hortelino Trocaletra,
das mil e uma noites, o ano da mula-sem-cabeça e do mendigo
que dava mijo para a mãe, o ano
da camisa-de-vênus boiando na beira da praia, o ano do negro
comendo a empregada no quarto de passar roupa, o ano da
febre, o ano da violência dos colegas de colégio, o ano dos
padres jesuítas sofrendo de solidão nas clausuras e o ano
das lâmpadas tristes das noites do colégio,

o ano das velas de cera
na igreja, o ano dos paramentos, o ano do coroinha sem fé, o ano
do covarde,
o ano do perigo de ser currado nos fundos do colégio,
o ano do soco na cara do mais forte e do sangue no nariz do valentão,
o ano
da descoberta do orgulho,
o ano do Tarzan,
o ano do Super-Homem, o ano da porra,
o ano da punheta de esguicho que ia até o teto de ladrilho
por causa da primeira mulher de biquíni na praia,
o ano da punheta pela empregada de peitos grandes e que deixava
quase tudo,
o ano da dor nos rins, o ano
de entrar no porão com a menina,
o ano de sentir o gosto de cuspe da menina,
o ano de sentir o cheiro
do entrepernas da menina e ficar
com aquele cheiro até hoje,
o ano da primeira
mulher e, antes da primeira mulher,
o ano da descoberta da literatura
e de Rimbaud e o ano
de ficar escrevendo o dia inteiro
numa febre
de descobrir qualquer coisa que ainda acho que vou achar,

o ano agora sim, da primeira mulher,
uma aeromoça louca da Panair que parecia uma odalisca
caída do céu,
o ano do meu corpo e do corpo da mulher,
o ano das lágrimas quentes, o ano
da solidão,
o ano das pernas cruzadas dos primeiros puteiros
visitados,
o ano do Mangue, da indescritível visão do Mangue que só Segall conheceu,
com as mil mulheres tremendo a língua para fora e
de calça e sutiã nas calçadas, o ano dos bordéis antigos da luz mortiça,
o ano das coxas, dos peitos, o ano cabeludo,
o ano oleoso, o ano das peles, o ano dos vasos de louça,
o ano de nada entender,
o ano da gonorréia, o ano de Thereza e de comer o primeiro amor e de flutuar
de paixão a um palmo das calçadas de Copacabana,

o ano da lua dourada, do sol vermelho, o ano de Ipanema,
de Leila Diniz,
o ano dos gritos
da mulher amada no colchão sujo e esfiapado que era um aparelho do Partido
Comunista numa noite de chuva,
o ano do amor e da revolução,
as duas coisas se confundindo
("serão as bombas ou meu coração batendo?" diria o Bogart em "Casablanca"),
o ano da UNE
pegando fogo,
o ano dos exilados, o ano de Corisco, o ano de Tom e Vinicius,
o ano do "Carcará", o ano do cinema
novo da noite negra do Ato 5, o ano que não terminou,
o ano da boca fechada, o ano da boca no cano de descarga, o ano do nervo
do dente exposto na boca do torturado, o ano das unhas
arrancadas,
o ano dos gritos,
o ano dos guerrilheiros
suicidas, o ano de cortar
a barriga com a faca de bambu, o ano de cortar
os pulsos com gilete
enferrujada,
o ano das cabeças
muito loucas, o ano de viver
perigosamente,

o ano da mescalina e do ácido, o ano das pernas e
dos braços virando cobras na "bad trip" da beira da praia, o ano
das ondas vermelhas e céus tangerina,
o ano de Copacabana
virando gelatina colorida,
o ano de Janis Joplin de porre comigo
num puteiro baiano cantando ponto de candomblé,
o ano da esperança nova, o ano de Nelson Rodrigues,
de Darlene Glória,
o ano das filhas nascendo dentro de um buraco estrelado,
o ano da esperança de sentido,
o ano da inocência,
o ano da ingenuidade, o
ano do leite,
o ano do ventre molhado, o ano dos quartos escuros,
o ano da vida, o ano do sol, o ano do jambo vermelho,
o ano das formigas, o ano das bonecas,
o ano do olho furado, o ano de ficar
louco,

o ano do corno, o ano do babaca, o ano de comer mulher,
o ano de chorar, o ano de aprender a viver de novo,
o ano do "vamos ver", o ano do "que será o amanhã?",
o ano do cachorro, o ano da vaca louca, o ano da cachorra no ar,
o ano da beira do
abismo,

o ano da volta à democracia, o ano do não, o ano do sim,
o ano de Collor, o ano do Itamar, o ano da hiperinflação,
o ano da inflação zero,
o ano dos Mamonas,
o ano dos caruarus, o ano dos carajás,
o ano dos genovevas, o ano dos cachorros quentes explodindo,
o ano dos desacontecimentos, o ano dos cabelos brancos,
o ano do último vôo livre de minha mãe.
1996,

o ano da expectativa,
o ano dos adiamentos, o ano da
esperança,
o ano
que ainda não começou e acaba hoje.
1996,
o ano
que vai começar em 97, feliz ano novo...

Canção para a amiga dormindo

Dorme, amiga, dorme
Teu sono de rosa
Uma paz imensa
Desceu nesta hora.
Cerra bem as pétalas
Do teu corpo imóvel
E pede ao silêncio
Que não vá embora.

Dorme, amiga, o sono
Teu de menininha
Minha vida é a tua
Tua morte é a minha.
Dorme e me procura
Na ausente paisagem...
Nela a minha imagem
Restará mais pura.

Dorme, minha amada
Teu sono de estrela
Nossa morte, nada
Poderá detê-la.

Mas dorme, que assim
Dormirás um dia
De um sono sem fim...
Na minha poesia.

02 dezembro 2008

Canções... De que são feitos os dias?

De que são feitos os dias?
– De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.
Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias,
– do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças...

Memória

Minha família anda longe,
com trajos de circunstância:
uns converteram-se em flores,
outros em pedra, água, líquen;
alguns, de tanta distância,
não têm vestígios que indiquem
uma certa orientação.
Minha família anda longe,
– na Terra, na Lua, em Marte –
uns dançando pelos ares,
outros perdidos no chão.

Tão longe, a minha família!
Tão dividida em pedaços!
Um pedaço em cada parte...
Pelas esquinas do tempo,
brincam meus irmãos antigos:
uns anjos, outros palhaços...
Seus vultos de labareda
rompem-se como retratos
feitos em papel de seda.
Vejo lábios, vejo braços,
– por um momento persigo-os:
de repente, os mais exatos
perdem a sua exatidão.
Se falo, nada responde.
Depois, tudo vira vento,
e nem o meu pensamento 
pode compreender por onde
passaram nem onde estão.

Minha família anda longe.
Mas eu sei conhecê-la:
um cílio dentro do oceano,
um pulso sobre uma estrela,
uma ruga num caminho
caída como pulseira,
um joelho em cima da espuma,
um movimento sozinho
aparecido na poeira...
Mas tudo vai sem nenhuma
noção de destino humano,
de humana recordação.

Minha família anda longe.
Reflete-se em minha vida,
mas não acontece nada:
por mais que eu esteja lembrada,
ela se faz de esquecida:
não há comunicação!
Uns são nuvem, outros, lesma...
Vejo as asas, sinto os passos
de meus anjos e palhaços,
numa ambígua trajetória
de que sou o espelho e a história.
Murmuro para mim mesma:
"É tudo imaginação!"

Mas sei que tudo é memória...

Canções...Se não houvesse montanhas!


Se não houvesse montanhas!
Se não houvesse paredes!
Se o sonho tecesse malhas
e os braços colhessem redes!
Se a noite e o dia passassem
como nuvens, sem cadeias,
e os instantes da memória
fossem vento nas areias!

Se não houvesse saudade,
solidão nem despedida...
Se a vida inteira não fosse,
além de breve, perdida!

Eu tinha um cavalo de asas,
que morreu sem ser pascigo.
E em labirintos se movem
os fantasmas que persigo.

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