Caio Fernando Abreu

"Depois de todas as tempestades e naufrágios, o que sobra de mim em mim é cada vez mais essencial e verdadeiro." Caio Fernando Abreu

09 dezembro 2009

A vida vivida


Quem sou eu senão um grande sonho obscuro em face do Sonho
Senão uma grande angústia obscura em face da Angústia
Quem sou eu senão a imponderável árvore dentro da noite imóvel
E cujas presas remontam ao mais triste fundo da terra?

De que venho senão da eterna caminhada de uma sombra
Que se destrói à presença das fortes claridades
Mas em cujo rastro indelével repousa a face do mistério
E cuja forma é a prodigiosa treva informe?

Que destino é o meu senão o de assistir ao meu Destino
Rio que sou em busca do mar que me apavora
Alma que sou clamando o desfalecimento
Carne que sou no âmago inútil da prece?

O que é a mulher em mim senão o Túmulo
O branco marco da minha rota peregrina
Aquela em cujos braços vou caminhando para a morte
Aquelas em cujos braços somente tenho vida?

O que é o meu amor, aí de mim! senão a luz impossível
Senão a estrela parada num oceano de melancolia
O que me diz ele senão que é vã toda a palavra
Que não repousa no seio trágico do abismo?

O que é o meu amor? senão o meu desejo iluminado
O meu infinito desejo do ser o que sou acima de mim mesmo
O meu eterno partir na minha vontade enorme de ficar
Peregrino, peregrino de um instante, peregrino de todos os instantes?

A quem respondo senão a ecos, a soluços, a lamentos
De vozes que morrem no fundo do meu prazer ou de meu tédio
A quem falo senão a multidões de símbolos errantes
Cuja tragédia efêmera nenhum espírito imagina?

Qual é o meu ideal senão fazer do céu poderoso a Língua
Da nuvem a Palavra imortal cheia de segredo
E do fundo do inferno delirantemente proclamá-los
Em Poesia que se derrame como sol ou como chuva?

O que é o meu ideal senão o Supremo Impossível
Aquele que é, só ele, o meu cuidado e o meu anelo
O que é ele em mim senão o meu desejo de encontrá-lo
E o encontrando, o meu medo de não o reconhecer?

O que sou eu senão Ele, o Deus em sofrimento
O tremor imperceptível na voz portentosa do vento
O bater invisível de um coração no descampado...
O que sou eu senão Eu Mesmo em face de mim?

(Antologia Poética - Editora Companhia de Bolso)



08 dezembro 2009

Agradecer as flores...


Era preciso agradecer às flores
Terem guardado em si,
Límpida e pura,
Aquela promessa antiga
De uma manhã futura.

Sophia Andresen

06 dezembro 2009

Tenho tanto sentimento

Tenho tanto sentimento
Que é freqüente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

05 dezembro 2009

Letra para um hino

É possível falar sem um nó na garganta
é possível amar sem que venham proibir
é possível correr sem que seja fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.

É possível andar sem olhar para o chão
é possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros
se te apetece dizer não grita comigo: não.

É possível viver de outro modo. É
possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.

Não te deixer murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre livre livre.

Manuel Alegre

04 dezembro 2009

Cartilha de guerra alemã

O pintor fala da grande época por vir

As florestas ainda crescem.
Os campos ainda produzem.
As cidades ainda existem.
Os homens ainda respiram.

Quando o pintor fala sobre a paz através dos alto-falantes

Os trabalhadores de construção olham para
As auto-estradas e vêem
Cimento espesso, próprio
Para tanques pesados.

O pintor fala de paz.
Aprumando as costas doloridas
As mãos grossas em tubos de canhões
Os fundidores o escutam.

Os pilotos dos bombardeiros
Desaceleram os motores e ouvem
O pintor falar de paz.

Os madeireiros param no silêncio dos bosques
Os camponeses deixam de lado o arado e colocam a mão atrás do ouvido
As mulheres que levam a comida para o campo se detêm:
No terreno revolvido há um carro com amplificador. De lá se ouve
O pintor pedir paz.

Os de cima dizem: guerra e paz

São de substância diferente
Mas a sua guerra e a sua paz
São como tempestade e vento.

A guerra nasce da sua paz
Como a criança da mãe
Ela tem
Os mesmo traços terríveis.

A sua guerra mata
O que a sua paz
Deixou de resto.

No muro estava escrito com giz:

Eles querem a guerra.
Quem escreveu
Já caiu.

Os de cima

Juntaram-se em uma reunião.
Homem da rua
Deixa de esperança.

Os governos
Assinam pactos de não-agressão.
Homem da rua
Assina teu testamento.

Quando os de cima falam de paz

A gente pequena
Sabe que haverá guerra.

Quando os de cima amaldiçoam a guerra
As ordens de alistamento já estão preenchidas.

A guerra que virá

Não é a primeira. Antes dela
Houve outras guerras.
Quando a última terminou
Havia vencedores e vencidos.
Entre os vencidos o povo miúdo
Sofria fome. Entre os vencedores
Sofria fome o povo miúdo.

Os de cima dizem que no exército

Reina fraternidade.
A verdade disso se percebe
Na cozinha.
Nos corações deve haver
O mesmo ânimo.
Mas nos pratos
Há dois tipos de comida.

No momento de marchar, muitos não sabem

Que seu inimigo marcha à sua frente.
A voz que comanda
É a voz de seu inimigo.
Aquele que fala do inimigo
É ele mesmo o inimigo.

General, teu tanque é um carro poderoso

Ele derruba uma floresta e esmaga cem homens.
Mas tem um defeito:
Precisa de um motorista.

General, teu bombardeio é poderoso.
Ele voe mais veloz que um vendaval e carrega mais carga que um elefante.
Mas tem um defeito:
Precisa de um engenheiro.

General, o homem é muito útil.
Ele pode voar e pode matar.
Mas tem um defeito:
Pode pensar.

Quando a guerra começar

Seus irmão se transformarão talvez
De modo que seus rostos não serão reconhecíveis.
Mas vocês devem permanecer os mesmos.

Eles irão à guerra, mas
Não como a uma matança, e sim
Como a um trabalho sério. Tudo
Terão esquecido. Mas vocês
Nada deverão ter esquecido.

Vocês receberão aguardente na garganta
Como todos os outros.
Mas deverão permanecer sóbrios.

Bertolt Brecht

01 dezembro 2009

A falta que ama

Entre areia, sol e grama
o que se esquiva se dá,
enquanto a falta que ama
procura alguém que não há.



Está coberto de terra,
forrado de esquecimento.
Onde a vista mais se aferra,
a dália é toda cimento.

A transparência da hora
corrói ângulos obscuros:
cantiga que não implora
nem ri, patinando muros.
Já nem se escuta a poeira
que o gesto espalha no chão.
A vida conta-se, inteira,
em letras de conclusão.


Por que é que revoa à toa
o pensamento, na luz?
E por que nunca se escoa
o tempo, chaga sem pus?


O inseto petrificado
na concha ardente do dia
une o tédio do passado
a uma futura energia.


No solo vira semente?
Vai tudo recomeçar?
É a falta ou ele que sente
o sonho do verbo amar?

28 novembro 2009

Lágrimas

" As lágrimas não são simples gotas de água, vêm da alma, da dor que sente sua alma e seu coração quando seu amor se cansa de lutar, quando sua alma chora por dentro e faz um mar imenso que sai por seu reflexo, pelos olhos que são o espelho da alma. É difícil aguentar tanta dor, tanta mentira, tanta decepção, tantos sonhos rompidos, tantas ilusões pisoteadas, aquele amor frustado, carícias perdidas, tanta injustiça e tantas feridas que doem como uma espada atravessando o coração e doi tanto por dentro... E por fora... Deve-se ter um sorriso materializando a falsa alegria porque poucas coisas te fazem sorrir quando sua alma está esgotada, mas há uma luz que nunca se apaga porque a esperança continua viva!!! " (Dulce Maria - tradução)


"LAS LAGRIMAS NO SON SIMPLES GOTAS DE AGUA,VIENEN DEL ALMA,DEL DOLOR QUE SIENTE TU ALMA Y TU CORAZON CUANDO TU AMOR SE CANSA DE LUCHAR, CUANDO TU ALMA LLORA POR DENTRO Y HACE UN MAR INMENSO QUE SALE POR SU REFLEJO ,POR LOS OJOS QUE SON EL ESPEJO DEL ALMA ES DIFICIL AGUANTAR TANTO DOLOR,TANTA MENTIRA,TANTA DECEPCION,TANTOS SUENOS ROTOS,TANTAS ILUSIONES PISOTEADAS,AQUEL AMOR FRUSTRADO,CARICIAS PERDIDAS ,TANTA INJUSTICIA Y TANTAS HERIDAS QUE DUELEN COMO UNA ESPADA ATRAVESANDO EL CORAZON Y DUELE TANTO POR DENTRO ..Y POR FUERA........DEBES TENER UNA SONRISA MATERIALIZANDO LA FALSA ALEGRIA PORQUE POCAS COSAS TE HACEN SONREIR CUANDO TU ALMA ESTA AGOTADA ,PERO HAY UNA LUZ QUE NUNCA SE APAGA PORQUE SIGUE VIVA LA ESPERANZA!!! " (Dulce Maria - original)

Poema Dulce

As vezes, nossos sonhos caem no chão
Como pedacinhos de estrelas que pouco a pouco se apagam
Nosso coração, chora em silêncio,
E quando as lágrimas caem, gelam todo o corpo
E o coração de tanto amar se converte em gelo
Para não sofrer mais, para já não chorar,
Mas se voltar ao céu,
Se darás conta que tem milhões de estrelas
E cada uma é um sonho por cumprir,
E a força em seu interior,
Derreterá o gelo em seu coração.
Só nunca deixe de acreditar,
Porque o amor
E teus sonhos
São a única porta
Para a eternidade.
(Dulce Maria - Tradução)

21 novembro 2009

Alma perdida

Toda esta noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma da gente,
Tu és, talvez, alguém que se finou!

Tu és, talvez, um sonho que passou,
Que se fundiu na Dor, suavemente...
Talvez sejas a alma, alma doente
D'alguém que quis amar e nunca amou!

Toda a noite choraste...e eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, advinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!

Contaste tanta coisa à noite calma,
Que eu pensei que tu eras a minh'alma
Que chorasse perdida em tua voz!...
Florbela Espanca

20 novembro 2009

Formas


De um único modo se pode dizer a alguém:
'não esqueço você'.
A corda do violoncelo fica vibrando sozinha
sob um arco invisível
e os pecados desaparecem como ratos flagrados.
Meu coração causa pasmo porque bate
e tem sangue nele e vai parar um dia
e vira um tambor patético
se falas no meu ouvido:
'não esqueço você'.
Manchas de luz na parede,
uma jarra pequena
com três rosas de plástico.
Tudo no mundo é perfeito,
e a morte é amor.

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