O rouge virou blush
O pó-de-arroz virou pó-compacto
O brilho virou gloss
O rímel virou máscara incolor
A Lycra virou stretch
Anabela virou plataforma
O corpete virou porta-seios
Que virou sutiã
Que virou lib
Que virou silicone
A peruca virou aplique, interlace, megahair, alongamento
A escova virou chapinha
'Problemas de moça' viraram TPM
Confete virou MM
A crise de nervos virou estresse
A chita virou viscose.
A purpurina virou gliter
A brilhantina virou mousse
Os halteres viraram bomba
A ergométrica virou spinning
A tanga virou fio dental
E o fio dental virou anti-séptico bucal
Ninguém mais vê...
Ping-Pong virou Babaloo
O a-la-carte virou self-service
A tristeza, depressão
O espaguete virou Miojo pronto
A paquera virou pegação
A gafieira virou dança de salão
O que era praça virou shopping
A areia virou ringue
A caneta virou teclado
O long play virou CD
A fita de vídeo é DVD
O CD já é MP3
É um filho onde éramos seis
O álbum de fotos agora é mostrado por email
O namoro agora é virtual
A cantada virou torpedo
E do 'não' não se tem medo
O break virou street
O samba, pagode
O carnaval de rua virou Sapucaí
O folclore brasileiro, halloween
O piano agora é teclado, também
O forró de sanfona ficou eletrônico
Fortificante não é mais Biotônico
Bicicleta virou Bis
Polícia e ladrão virou counter strike
Folhetins são novelas de TV
Fauna e flora a desaparecer
Lobato virou Paulo Coelho
Caetano virou um chato
Chico sumiu da FM e TV
Baby se converteu
RPM desapareceu
Elis ressuscitou em Maria Rita?
Gal virou fênix
Raul e Renato,
Cássia e Cazuza,
Lennon e Elvis,
Todos anjos
Agora só tocam lira...
A AIDS virou gripe
A bala antes encontrada agora é perdida
A violência está coisa maldita!
A maconha é calmante
O professor é agora o facilitador
As lições já não importam mais
A guerra superou a paz
E a sociedade ficou incapaz...
... De tudo.
Inclusive de notar essas diferenças
Caio Fernando Abreu
"Depois de todas as tempestades e naufrágios, o que sobra de mim em mim é cada vez mais essencial e verdadeiro." Caio Fernando Abreu
05 fevereiro 2009
04 fevereiro 2009
A Mulher Banana
A esta altura do campeonato, você já deve saber quem é a Mulher Melancia e a Mulher Jaca. São duas dançarinas de funk que ganharam notoriedade por possuírem quadris avantajados(respectivamente, 121 cm uma, 101 cm a outra). Essa é toda a história, com começo, meio e fim.
Tem também a Mulher Rodízio, forma bem-humorada com que a Preta Gil se autobatizou, justificando que ela tem carne para todo mundo.
Pois agora vou apresentar pra vocês a grande novidade desse mercado tão nutritivo: a Mulher Banana.
A Mulher Banana, se tivesse um quadril de 120 cm, correria três horas por dia numa esteira. Se isso não adiantasse, correria para uma mesa de cirurgia a fim de lipoaspirar uns cinco bifes de cada lado, pois ela acha que ter um bundão desmesurado é uma coisa meio vulgar. Faria isso por vaidade, pois acredita que, na prática, não faz a menor diferença para os homens se a mulher tem 90 cm ou 120 cm. Eu avisei que ela é banana.
Essa questão da vulgaridade quase a deixa doente. Ela não se conforma que essa bobajada ganhe tanto espaço na imprensa, incentivando um monte de menininhas a também rebolarem no pátio da escola. Ela morre de vergonha ao ver a mãe da Mulher Melancia dizer para um repórter que sente muito orgulho de ter uma filha vitoriosa. Ela se pergunta: pelamordedeus, não existe ninguém para avisar essa gente que ter bunda não é um talento? A Mulher Banana é totalmente sem noção, coitada.
A Mulher Banana não se dá conta de que há pouco assunto para muito espaço na mídia. Não há novidade que chegue para preencher tanto conteúdo de internet, tanta matéria de revista, tanto programa de tevê, e é por isso que qualquer bizarrice vira notícia. Sem falar que, hoje em dia, tudo é cultura de massa, tudo é pop, tudo é passível de análise para criarmos uma identidade nacional. Não, não, não pode ser!! Pode, Mulher Banana.
A Mulher Banana, como o próprio nome diz, é ingênua, inocente, tolinha. Ela acredita que o discernimento nasceu para todos e que ser elegante vale mais do que ser ordinária. É boba, mesmo. Não no mercado das mulheres hortifrutigranjeiras, minha cara. Aliás, mercado ao qual você também pertence. Banana.
A Mulher Banana ainda se choca com certas imagens, com certas fotos. Não que ela desacredite no que está bem diante do seu nariz (já sondei e não tem parentesco algum com a Velhinha de Tatuapé). Ela vê, ela sabe, ela está bem informada. Só que não consegue tirar isso pra piada, não leva na boa, não passa batido: ela é tão banana que se importa!!
Aviso desde já que a Mulher Banana não tem empresário, não posa para sites eróticos, não dá entrevistas e muito menos aceita sair de dentro de um bolo gigante usando apenas um tapa-sexo. Ela é banana. Vai morrer sem dinheiro, só é rica em potássio. E não pense que é movida à inveja. Se fosse, invejaria a bundinha da Gisele Bundchen, que também andou à mostra por esses dias e tem um tamanho bem razoável. A Mulher Banana, tadinha, ainda sonha com a valorização de um padrão estético razoável e de um comportamento social menos nanico. Não pode ser brasileira! Mas é, conheço-a como a mim mesma. (20 abril de 2008)
01 fevereiro 2009
Convite
Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou mistério
A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos a sério.
(em Releituras)
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou mistério
A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos a sério.
(em Releituras)
31 janeiro 2009
Retrato
Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?
Murmúrio
Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.
Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.
Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
- Vê que nem te digo - esperança!
- Vê que nem sequer sonho - amor!
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.
Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.
Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
- Vê que nem te digo - esperança!
- Vê que nem sequer sonho - amor!
Canção

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar
Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.
O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...
Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.
Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.
28 janeiro 2009
Arrume tempo...
Arrume tempo para ser feliz.
é fundamental que você não repare apenas nas flores,
mas tenha tempo para cheirar seus odores e apreciar suas cores,
e principalmente, disponha de tempo para oferecer uma flor para alguém.
Arrume tempo para a boa música..
é fundamental que você ouça uma boa música,
mas é mais importante ainda, deixar que a música limpe a sua alma,
que ela penetre no seu ser e que você viva cada nota.
Arrume tempo para relaxar.
Tenha tempo para se deixar levar pelas coisas simples da vida,
como meditar, orar, emocionar se, brincar no parque, andar de patins,
de bicicleta ou simplesmente não fazer nada...
Arrume tempo para uma viagem.
Pode ser uma viagem curta, ou longa,
tudo depende de sua disposição, tempo e dinheiro,
mas o mais importante é ter tempo para curtir a paisagem
e não ficar esperando apenas pela chegada ao local.
Arrume tempo para uma boa leitura.
Leia um livro, mas tenha tempo para ler
e viajar com os personagens, onde a emoção puder te levar.
Arrume tempo para organizar-se.
É fundamental ter tempo para organizar as suas coisas,
mas é fundamental ter um tempo para organizar as suas idéias,
seus desejos e reciclar os sonhos.
Sonhos parados são como água estagnada, criam bichos e doenças.
Arrume tempo para a família.
É fundamental criar filhos, namorar (mesmo depois de 30 anos de casados),
bater papo com os pais, com os irmãos, com os amigos mais próximos,
mas é muito importante que você não guarde mágoas, por isso,
a conversa ainda é a melhor resposta contra as dúvidas, dores e separações.
Arrume tempo para Deus.
É fundamental contar com Deus.
Seja qual for a sua crença, seja qual for a sua religião,
sem Deus é impossível ser plenamente feliz.
Quanto tempo de sua vida é dedicado a Ele?
Quantos minutinhos você dedica a leitura de um salmo,
um versículo, uma passagem da Bíblia para meditar e praticar mudanças.
Quanto de suas decisões tem a opinião de Deus?
Arrume tempo para o amor.
Ame-se!
Ame muito.
Não se importe com as dores e decepções do amor,
mais infeliz é aquele que ainda não viveu um grande amor,
e todo amor fica enorme, quando você respeita o sentimento
que habita em você e existe para te fazer feliz!
A vida em si mesma já é um ato de amor.
(Paulo Roberto Gaefke)
é fundamental que você não repare apenas nas flores,
mas tenha tempo para cheirar seus odores e apreciar suas cores,
e principalmente, disponha de tempo para oferecer uma flor para alguém.
Arrume tempo para a boa música..
é fundamental que você ouça uma boa música,
mas é mais importante ainda, deixar que a música limpe a sua alma,
que ela penetre no seu ser e que você viva cada nota.
Arrume tempo para relaxar.
Tenha tempo para se deixar levar pelas coisas simples da vida,
como meditar, orar, emocionar se, brincar no parque, andar de patins,
de bicicleta ou simplesmente não fazer nada...
Arrume tempo para uma viagem.
Pode ser uma viagem curta, ou longa,
tudo depende de sua disposição, tempo e dinheiro,
mas o mais importante é ter tempo para curtir a paisagem
e não ficar esperando apenas pela chegada ao local.
Arrume tempo para uma boa leitura.
Leia um livro, mas tenha tempo para ler
e viajar com os personagens, onde a emoção puder te levar.
Arrume tempo para organizar-se.
É fundamental ter tempo para organizar as suas coisas,
mas é fundamental ter um tempo para organizar as suas idéias,
seus desejos e reciclar os sonhos.
Sonhos parados são como água estagnada, criam bichos e doenças.
Arrume tempo para a família.
É fundamental criar filhos, namorar (mesmo depois de 30 anos de casados),
bater papo com os pais, com os irmãos, com os amigos mais próximos,
mas é muito importante que você não guarde mágoas, por isso,
a conversa ainda é a melhor resposta contra as dúvidas, dores e separações.
Arrume tempo para Deus.
É fundamental contar com Deus.
Seja qual for a sua crença, seja qual for a sua religião,
sem Deus é impossível ser plenamente feliz.
Quanto tempo de sua vida é dedicado a Ele?
Quantos minutinhos você dedica a leitura de um salmo,
um versículo, uma passagem da Bíblia para meditar e praticar mudanças.
Quanto de suas decisões tem a opinião de Deus?
Arrume tempo para o amor.
Ame-se!
Ame muito.
Não se importe com as dores e decepções do amor,
mais infeliz é aquele que ainda não viveu um grande amor,
e todo amor fica enorme, quando você respeita o sentimento
que habita em você e existe para te fazer feliz!
A vida em si mesma já é um ato de amor.
(Paulo Roberto Gaefke)
26 janeiro 2009
Oração a mim mesma

Que eu me permita olhar e escutar e sonhar mais.
Falar menos. Chorar menos.
Ver nos olhos de quem me vê a admiração que eles me têm e não a inveja que, prepotentemente, penso que têm.
Escutar com meus ouvidos atentos e minha boca estática, as palavras que se fazem gestos e os gestos que se fazem palavras.
Permitir sempre escutar aquilo que eu não tenho
me permitido escutar.
Saber realizar os sonhos que nascem em mim e por mim e
Falar menos. Chorar menos.
Ver nos olhos de quem me vê a admiração que eles me têm e não a inveja que, prepotentemente, penso que têm.
Escutar com meus ouvidos atentos e minha boca estática, as palavras que se fazem gestos e os gestos que se fazem palavras.
Permitir sempre escutar aquilo que eu não tenho
me permitido escutar.
Saber realizar os sonhos que nascem em mim e por mim e
comigo morrem por eu não os saber sonhos.
Então, que eu possa viver os sonhos possíveis e os impossíveis;
aqueles que morrem e ressuscitam a cada novo fruto,
a cada nova flor, a cada novo calor, a cada nova geada, a cada novo dia.
Então, que eu possa viver os sonhos possíveis e os impossíveis;
aqueles que morrem e ressuscitam a cada novo fruto,
a cada nova flor, a cada novo calor, a cada nova geada, a cada novo dia.
Que eu possa sonhar o ar, sonhar o mar,
sonhar o amar, sonhar o amalgamar.
Que eu me permita o silêncio das formas,
dos movimentos, do impossível,
da imensidão de toda profundeza.
Que eu possa substituir minhas palavras
pelo toque, pelo sentir, pelo compreender,
pelo segredo das coisas mais raras, pela oração mental
(aquela que a alma cria e que só ela, alma, ouve
e só ela, alma, responde).
sonhar o amar, sonhar o amalgamar.
Que eu me permita o silêncio das formas,
dos movimentos, do impossível,
da imensidão de toda profundeza.
Que eu possa substituir minhas palavras
pelo toque, pelo sentir, pelo compreender,
pelo segredo das coisas mais raras, pela oração mental
(aquela que a alma cria e que só ela, alma, ouve
e só ela, alma, responde).
Que eu saiba dimensionar o calor, experimentar a forma,
vislumbrar as curvas, desenhar as retas,
e aprender o sabor da exuberância que se mostra
nas pequenas manifestações da vida.
Que eu saiba reproduzir na alma a imagem
que entra pelos meus olhos
fazendo-me parte suprema da natureza, criando-me
e recriando-me a cada instante.
vislumbrar as curvas, desenhar as retas,
e aprender o sabor da exuberância que se mostra
nas pequenas manifestações da vida.
Que eu saiba reproduzir na alma a imagem
que entra pelos meus olhos
fazendo-me parte suprema da natureza, criando-me
e recriando-me a cada instante.
Que eu possa chorar menos de tristeza
e mais de contentamentos.
Que meu choro não seja em vão, que em vão não sejam
minhas dúvidas.
Que eu saiba perder meus caminhos mas saiba recuperar
e mais de contentamentos.
Que meu choro não seja em vão, que em vão não sejam
minhas dúvidas.
Que eu saiba perder meus caminhos mas saiba recuperar
meus destinos com dignidade.
Que eu não tenha medo de nada,
principalmente de mim mesmo:
Que eu não tenha medo de nada,
principalmente de mim mesmo:
- Que eu não tenha medo de meus medos!
Que eu adormeça
toda vez que for derramar lágrimas inúteis,
e desperte com o coração cheio de esperanças.
Que eu faça de mim um homem sereno
dentro de minha própria turbulência,
sábio dentro de meus limites pequenos e inexatos,
humilde diante de minhas grandezas tolas e ingênuas
(que eu me mostre o quanto são pequenas
minhas grandezas e o quanto é valiosa minha pequenez).
Que eu adormeça
toda vez que for derramar lágrimas inúteis,
e desperte com o coração cheio de esperanças.
Que eu faça de mim um homem sereno
dentro de minha própria turbulência,
sábio dentro de meus limites pequenos e inexatos,
humilde diante de minhas grandezas tolas e ingênuas
(que eu me mostre o quanto são pequenas
minhas grandezas e o quanto é valiosa minha pequenez).
Que eu me permita ser mãe, ser pai,
e, se for preciso, ser órfão.
Permita-me eu ensinar o pouco que sei
e aprender o muito que não sei,
traduzir o que os mestres ensinaram
e compreender a alegria
com que os simples traduzem suas experiências;
respeitar incondicionalmente o ser;
o ser por si só, por mais nada que possa ter além de sua essência,
auxiliar a solidão de quem chegou, render-me ao motivo de quem partiu
e aceitar a saudade de quem ficou.
Que eu possa amar e ser amado.
Que eu possa amar mesmo sem ser amado,
fazer gentilezas quando recebo carinhos;
fazer carinhos mesmo quando não recebo gentilezas.
e, se for preciso, ser órfão.
Permita-me eu ensinar o pouco que sei
e aprender o muito que não sei,
traduzir o que os mestres ensinaram
e compreender a alegria
com que os simples traduzem suas experiências;
respeitar incondicionalmente o ser;
o ser por si só, por mais nada que possa ter além de sua essência,
auxiliar a solidão de quem chegou, render-me ao motivo de quem partiu
e aceitar a saudade de quem ficou.
Que eu possa amar e ser amado.
Que eu possa amar mesmo sem ser amado,
fazer gentilezas quando recebo carinhos;
fazer carinhos mesmo quando não recebo gentilezas.
Que eu jamais fique só, mesmo quando eu me queira só.
Amém.
(Oswaldo Antônio Begiato)
Amém.
(Oswaldo Antônio Begiato)
23 janeiro 2009
Oh, Lord!
Liguei o rádio do carro e santa nostalgia: estava tocando uma música da Janis Joplin que marcou minha infância, mesmo que naquela época eu não entendesse quase nada de inglês – não que entenda muito hoje. Você deve lembrar, é um clássico, começa dizendo: "Oh, Lord, won't you buy me a Mercedes Benz? My friends all drive Porshes, I must make amends", que significa mais ou menos: "Oh, senhor, não quer me comprar um Mercedes Benz? Todos os meus amigos dirigem Porsches, eu preciso compensar." E seguia nessa irônica e provocativa prece pedindo nem paz, nem amor, e sim uma tevê a cores e noitadas. Se Ele a amasse mesmo, não a deixaria na mão.
Oh, Lord, quantas pessoas, hoje, não estão por aí também rezando por uma Louis Vuitton original de fábrica e por uma poderosa tevê de plasma? Elas abrem as revistas e estão todos tão melhores de vida do que elas, como ser feliz sem igualdade de condições? Dê a essas pessoas o que elas pedem, Senhor, é só fazê-las ganhar um sorteio, uma rifa. Imagine a dificuldade que o Senhor teria para atendê-las caso elas pedissem um mundo mais acolhedor, menos agressivo, mais sensato, o trabalhão que iria dar.
Oh, Lord, reconheça a inocência de quem lhe pede uma casa na praia, um chalezinho na montanha, ou mesmo um belo apartamento em bairro nobre, o Senhor sabe que essas pessoas não foram treinadas para se satisfazerem com o que têm, mesmo que tenham tanta coisa, como família, paz de espírito, um emprego decente, mas isso não conta, isso não enche barriga de ninguém.

Oh, Lord, ninguém anda rezando por fé, pela saúde do vizinho, para resistir aos apelos consumistas, nem mesmo para simplesmente dizer: "Obrigada, Senhor". Não se faz mais esse tipo de concessão: afinal, obrigada por que? Eles querem ser convidados para as festas. Eles querem melhorar. Compense-os com um relógio de grife, uma corrente de ouro, um celular bem fininho e uma câmera digital, eles não podem comprar, mas o Senhor pode, o Senhor tem crédito em qualquer loja, o Senhor só precisa fazer abracadabra e tudo se resolve.
Janis Joplin gravou essa música em 1970. Nos últimos 37 anos, o número de súplicas estapafúrdias segue aumentando e quase ninguém mais lembra de agradecer o mistério da existência, o poder transformador dos afetos, a liberdade de escolha, o contato com o que ainda nos resta de natureza, o encanto dos encontros, a poesia que há numa vida serena, a alma nossa de cada dia, essas coisas que aparecem tão obsoletas, e pelo visto são. Oh, Lord, desça daí, faça alguma coisa, que aqui embaixo trocaram o abstrato pelo concreto e não demora estarão pedindo a parte deles em dinheiro. (texto do livro 'Doidas e Santas')
22 janeiro 2009
Onde é que eu ia mesmo?
Uma vez escrevi uma crônica que se chamava "Coisa com coisa". Era sobre a minha vexamosa tendência de trocar o nome das pessoas. Não apenas nomes de pessoas que mal conheço, mas também nomes de parentes. Parentes próximos, como filhos. Com o tempo, comecei a trocar também nomes de objetos, a me embaralhar com verbos e a perder palavras que estavam na ponta da língua. Ou seja, passei a não dizer mais coisa com coisa.
Pois tenho novidades: piorei muito.
Às vezes estou no meu quarto e penso: vou na sala buscar meus óculos. Quando estou no corredor, já esqueci o que ia fazer na sala. Quando chego na sala, olho em volta e tento descobrir o que fui fazer ali. Não recordo. Fico feito uma barata tonta: "O que era mesmo?" Volto pro quarto de ré, pra ver se a memória é resgatada no rewind, feito fita rebobinada, mas não adianta. Dali a dois minutos, lembro: "Ah, eu ia pegar os óculos! Onde mesmo?"
Tenho comentado isso com alguns amigos, na esperança de que me olhem com piedade e me recomendem um bom médico, mas o que mais escuto é: "Comigo tem sido a mesma coisa". Pesquisei com conhecidos dos dezenove aos noventa anos. Com todos tem sido assim. Alzheimer geral. Tem alguma coisa errada, e não é só comigo.
Li recentemente uma matéria que associa a falta de memória com a falta de sono. É uma teoria. Os especialistas entrevistados para a matéria recomendam que a gente não abra mão de dormir oito horas seguidas. Dizem que isso não é balela, que ajuda mesmo o cérebro a descansar e a retomar as tarefas do dia seguinte com funcionamento pleno. Maravilha. Oito horas de sono. Me explique como.
Eu apago a luz cedo. Antes da meia-noite. Às vezes às dez e meia. Tenho perdido o Saia Justa por causa disso. O Manhattan Connection. A minissérie Queridos Amigos. Meu sono está me emburrecendo, mas, quando os olhos pesam, não há outra saída a não ser capitular. Desligo o abajur e apago junto. Só que às quatro da matina minha cabeça acorda sozinha! A cabeça, essa maldita. Ela então faz um apanhado geral dos problemas a serem resolvidos no dia seguinte.Na verdade, nem problemas são, mas durante a madrugada qualquer unha encravada vira um câncer terminal. Sabe como é, a noite potencializa o drama. Então fico eu ali fritando nos lençóis, pensando, pensando. Verbo desgraçado: pensar.
Quando consigo pegar no sono de novo, o despertador faz o seu serviço: me desperta. Cedíssimo: hora de levar os filhos (o nome deles, mesmo?) ao colégio. Há quem tenha reunião no escritório. Outros massagens. Outros precisam ir para a parada de ônibus. Quem consegue hoje em dia dormir oito horas de sono cravado? Os milionários, e nem eles, eu acho.
Tampouco tenho sonhado. Não há sono suficiente para criar uma historinha com começo, meio e fim. Freud teria dificuldade em trabalhar hoje em dia: dorme-se pouco. E lembra-se menos ainda. Fim de era para o descanso e a memória. Do que eu estava falando mesmo?
A solução é mudar a rotina. Ver menos televisão. Ter menos obrigações. Morar em lugares mais silenciosos. Ter menos vida noturna. Menos compromissos. Menos agenda. Menos e-mails. Menos contatos profissionais, mais amigos. Menos trabalho, mais férias. Menos filhos: é difícil decorar dois nomes. Filho único é mais fácil. E deixar de frescura e pendurar logo aquele troço medonho que prende as hastes dos óculos ao nosso pescoço. (texto do livro 'Doidas e Santas')
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